Minha mãe não está. E meu filho está doente

Hoje é domingo, o menino está doente e diferente de outras horas não posso ligar para minha mãe e relatar o quadro da febre insistente ouvindo ela tranquilizar-me dizendo que nessa fase da infância garganta dá temperatura e  orientar-me a tirar o pijama, colocar no banho fresco, dar o antitérmico, insistir na água abundante, no purê de batata, canjinha e a afirmar-me por fim que se ele não quiser comer, tudo bem, porque criança doente não tem fome (mas talvez um danoninho ele tente).

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A MANHÃ DE SEMPRE DE SÁBADO

Hoje é sábado, penso enquanto abro os olhos inchados-cafeíno-abstênicos.

Antes que me levante e como convém ao ansioso, penso sobre todas as coisas adiadas pela semana em estado de saturação que poderiam ser feitas nos rescaldos da sua utilidade:

Posso comprar prendedores e arrumar as fotos do mural. Ou ainda fazer a unha. Ah. Não-não. Tenho que mandar o espremedor de laranjas arrumar, a roupa do super-homem do filho na costureira, trocar as molduras de dois quadros da sala que aguardam há um mês no banco de trás do carro pela nova guarnição e comprar meias para o menino (como se perdem as meias de criança, meu Deus). Também tenho que comprar frutas. Frutas, verduras e a carne do almoço. O almoço (me alvoroço) esquecendo do quadro, do esmalte e qualquer outro compromisso reprimido.

Strogonoff? – Me pergunto enquanto coloco água do café para ferver e piso no achocolatado espalhado ontem no chão pelo meu filho se aventurando em servir-se o próprio tetê e recém lambido pelo cachorro, melecando meus pés quentes de cama.

‘Ai credo Tobias!!!’, desaprovo o peludo.

Tateio o pano de chão ao lado do tanque antes de me agachar para limpar a viscosidade babo-achocolatada. Strogonoff não vai rolar. Tô sem creme de leite. O fato é que strogonoff é uma boa para qualquer almoço desprevenido. Porque você sempre tem um molho de tomate e um creme de leite marcando em casa. A não ser hoje, no meu caso.

A água está fervendo e o meu filho reclamando o leite fresco no sofá com emergência. ‘“Manhêêêêêê, traz meu leite’. Desligo o fogão, lavo o copo, levo o leite e continuo com a cara deslavada e o cabelo desgrenhado. “Mamãe, que horas é o futebol?”. Cacete. Por alguns minutos esqueci do futebol.

‘Já já filho’, apresso o moleque. Tá todo mundo no limite do tempo. O papai para trabalhar, você para jogar! Toma o leite, coloca o uniforme, escova os dentes que eu vou tomar café e arrumar a mochila.

Sigo para a cozinha em arranque e ligo novamente o fogão. Puxo o meião do varal carregando junto pro chão uma calça jeans e dois panos de prato. Saco. Cato as roupas e com a outra mão aproveito para agarrar a mochila dormente ao lado da lixeira, entornando-a de boca para despejar os infanto-saldos da semana: Vinte gramas de areia de parquinho misturadas com farelo de biscoito São Carlos, meia barrinha de cereais de iogurte, um pé de meia vinte e sete muito muito sujo e um sabonete-líquido-da cabeça-aos-pés.

Provisiono a mochila alaranjada com uma calça, uma bermuda, uma fantasia de capitão américa (de calor), uma fantasia do Homem Aranha (de frio), uma cueca, um par de meias, um pacote de bolacha de maisena, uma banana, uma caixinha de água de coco e…. Filhinho vai querer levar algum brinquedo na mochila?  

Sair com criança requer sempre cuidado na seleção e armazenamento dos suprimentos. Troca de frio, troca de calor, cueca para quando o moleque segura o xixi para não ter-que-parar de brincar deixando o dourado escapar pipi abaixo. Sem contar o snack e um brinquedo – que é fundamental para situações extra. Tipo. Você tem que ir ao tapeceiro escolher o estofado do sofá. Coisa boring para criança. É daí que o brinquedo entra. A criança se entretém com o herói ou tanto faz enquanto você tem 10 minutos silenciosos para escolher o tecido.

Mamãe, eu quero levar o Batman. Então você coloca a fantasia do Batman na minha mochila para eu vestir depois do futebol? Pergunta o maravilhoso enquanto abre um sorriso altamente fascinante pra mim. Meu brilho, meu inteiro de céu, amorzinho da mamãe – proclamo entre beijos molhados no rosto do filho – claro que eu coloco! Mas termina logo seu leite que a gente está atrasado.

Enquanto o menino termina o leite aproveito para bater o sofá cheio de bolachas craqueladas e outros maciços micro particularizados que não consigo definir a vocação. Que foi que você e seu pai comeram aqui, hein filho? Que importa também. Não sei a sua, mas embora as vassouras e panos de chão trabalhem firme aqui na minha goma, a sala tá sempre com farelos & cia semeados pelo sofá e o chão. Parecem pêlos de barba re(crescendo) imediatamente após o barbear. O negócio é relaxar e deixar a casa à vontade com a sua sujeira de todos os dias.

Mas eu não consigo.

Filho, terminou o leite? Termina e coloca o uniforme. Vou só tomar o café, me trocar em 5 minutos e vamos. Retorno ao fogão onde a água fervera e refervera por duas vezes desde a hora que acordei e, finalmente, despejo a translúcida sobre o pó disposto a me despertar, de fato, pro sábado. O cheiro por si só me aviva. Sirvo ¼ do volume da caneca que o filho ganhou na escola adoçado com meia colherinha de açúcar. Só quebrar de leve o amargor.

Carrego a caneca até a sala como um prêmio, escolho a poltrona para o previlégio dos cinco minutos de ócio e sento. Que delícia. Café. Antes mesmo do primeiro gole percebo minha coxa direita em(banhada) de ponta-a-ponta por alguma coisa de viscosidade duvidosa…. Não fosse o cheiro grave. Qué isso, meu?? É a Pasta de dente de frutas vermelhas. FILHOOOO!!! Pasta de dentes no sofá?

Largo a caneca e retorno à dispensa para buscar um limpador-anti-pasta-de-dente-para-sofá e no caminho aproveito para catar remanescências noturnas da sala: um pacote de bolacha (vazio), um copo com crosta endurecida de achocolatado, 4 carrinhos de Hot Weels (um dos quais eu piso com a borda-de-fora do pé esquerdo) e uma tampinha de suco mordida pelo cachorro. Enquanto isso penso sobre como tirar a pasta de dentes do sofá. Se eu passar pano molhado vai fazer espuma e virar uma merda completa de frutas vermelhas. Se eu passar pano seco, não vai sair o trem do estofado. Passo pano úmido. Fica uma porcaria. Mas não há tempo para remendos. Mãe, acabei o tetê, mas quero alguma coisa de comer. Comer, filhinho? Melão, mamão, pêra, bisnaguinha com manteiga? Pensa logo. Corre. Diz, que a gente está atrasado.

Melão!

Corto a fruta em quadradinhos perfeitos para a boca tamanho P do esfomeado, enquanto calculo o tempo da chuveirada. Filho, come em cinco minutos enquanto a mamãe toma banho. Não vou nem lavar a cabeça (embora devesse). Deveria, pois pessoas de cabelo cacheado acordam com a crina selvagem, meu nome é Gal, cabelaço, ravengar. E as únicas coisas que amansam o ímpeto dos pêlos são água abundante combinada com o santo-modelador-de-cachos.

O bom é que, já habituada ao lack of time de tantos sábados, segundas, quintas-e-etecéteras  achei a solução para a domagem dos caracóis de cama. Eu faço um coque beeem lá prá cima no topo da cabeça e espanto o frizz com pomada de cabelo do meu marido. Outro dia um amigo falou…. Esse penteado que você faz é bem da hora. Fiquei quieta.

COMEU FILHO?? Grito escada abaixo enquanto me visto com a primeira roupa que encontro e aproveito para arrumar minha cama e guardar nos armários algumas toalhas e lençóis que pouco antes retirei do varal. Tô pronta. Vamos gentis. A aula começa em 5 minutos.

Desço as escadas trotando, cato o moleque no colo com o potinho de melão numa mão e o Batman na outra. Aproveito os 25 segundos de viagem de elevador para descansar (cara, se tá pesado, filhinho!), atravesso a garagem na banguela e despejo criança, super-herói, potinho, mochila, bolsa, celular com o fio conectado-pendurado e espremedor de frutas no carro. Aiiii filho. Esqueci meu livro. Fica aí que eu já volto.

Dou um fast foward no trajeto, entro no elevador, quico em casa,  pego meu livro e dois dedos de café no copo de requeijão e volto correndo pro carro, no intervalo de 2 minutos exatamente. Olha, eu posso esquecer qualquer coisa, mas não o livro. Porque é durante a aula de foot que eu consigo atingir minha pequena e justa meta sabadal. Ler, ué. Então, todo sábado é a mesma coisa. Eu chego, sento beeeem longe de outros pais, avós, babás, tios e padrastos parecendo indelicada e leio. Veja só que maravilha. Eu leio. E entre uma e outra páginas alcanço meu menino com os olhos míopes campo adentro e inflo o peito orgulhosa. Meu rivelininho, minha vidinha futeboleira!!!

São 11h10 e a aula acaba de terminar. Inopinadamente reflito sobre o que poderia fazer nos 50 minutos de saldo útil de sábado. Acho que dá para levar o espremedor pra arrumar, além de comprar a carne pro almoço. No mesmo instante o filho sai suado do campo, já com outro plano à tiracolo. Mamãe quero fazer slime!!! Vamos passar na papelaria pra comprar cola e gliter? Hum…. tá bom, meu amor. Descarto o conserto do espremedor. As meias? Compro na internet. Os quadros, forget about. Unhas? Quem falou em unhas?

Retorno para o carro com o atleta no colo e arranco em direção à papelaria. Do retrovisor vejo os cabelinhos do moleque esvoaçando no sabor do vento. Tão imensuravelmente lindo, meu Deus! Já tá chegando a papelaria, mamãe? No caminho de volta para casa ligo para minha irmã para combinarmos a tarde das crianças. Piscina, teatro ou cinema? Piscina. Tá calor. Você leva suco para as crianças, irmã? Eu passo na sorveteria e compro picolés. 

A manhã de sábado passa ligeira como sempre, arrastando junto os planos que sempre faço. Who cares? Tá tudo dentro dos planos, nêga. E entre pipocas, picolés e mais e mais bagunça na sala a tarde também cai. Rápida, vertiginosa. Ligo ansiosa pleiteando a presença do marido para fazer completo o sábado que me deixa completa.

Vai demorar, amor? Não demora não, vai. E… no caminho, você traz o leite do bonito? ah, e a breja. Traz também a breja?

 

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TOPA? (PARTE I)

– oi Marcelo tudo bem?

– tudo.

– que se tá fazendo?

– nada.

– então vou passar aí. A gente sai, come uma pizza de padaria, toma uma Tubaína, fala sobre flores, finge que tá tudo normal.

– topa?

– topo. Cola aí.

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QUANTOS?

Quantos leões é possível matar de uma só vez?

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TOPA?

– Oi Fa… tudo?

– Tudo amiga.

– Que se tá fazendo?

– Lendo Clarisse.

– Ah.

– Topa bater perna na Liberdade, comprar um shimeji, uma regatinha da copa…. depois a gente toma uma breja no Azaléia, fala de flores, finge que tá tudo normal. Topa?

– Topo. Me encontra em 20 no Metrô Consolação.

– Bele.

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AQUI NA TERRA

A casa tá caindo, o Brasil tá quebrando.

Do outro lado, a seleção. Jogando.

Aqui na terra tá tudo normal: Estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock n´ roll.

E faz sol (faz sempre sol).

A gente? A gente segue torcendo.

E se ferrando.

Vamo que vamo Brasiiiiiiiillllllllllll!!!!!!!!!!!!

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INDICAÇÃO

Busco companhia para procurar onde nasce o arco-íris. Quem tiver interesse, encontrar comigo às 9h na confluência da chuva e do sol. Importante: levar garrafinha de água, protetor solar e um tênis confortável.

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ESCOLHA A ALTERNATIVA CORRETA

Tô meio desapontada, meio assim, meio assado…. sabe? Para melhorar, devo:

A) Fechar o escritório, desencanar do whats e ir para casa assistir Netflix (No quarto, com ar condicionado ligado e sob o cobertor)

B) Comprar um sapato por impulso

C) Tomar uma cerveja antes do almoço para ficar pensando melhor

D) Todas as alternativas apresentadas

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MARIA CECÍLIA

Maria Cecília é uma mulher forte. Forte como pedra pomes.

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HOJE EU ACORDEI O DIA

Acordei o dia hoje e ainda a noite pintava o céu de escuro e silêncio.

Cheguei pé ante pé para não atrapalhar seu sonho. Servi café, anunciei a agenda, a luz que chegaria, o calor eminente.

Sai da cama, dia.

Levanta.

Começa e Conta comigo.

Que eu já estou levantada e pronta.

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